quarta-feira, 22 de novembro de 2017
sábado, 11 de novembro de 2017
NOMES E HISTÓRIAS: BEBERIBE E SEUS DISTRITOS.
Beberibe, Sucatinga, Paripueira, Parajuru,
Itapeim, Serra do Félix e Forquilha são distritos de de uma bela terra cheia de encantos e histórias.
Por Onésimo Remígio
A primeira vez que publiquei partes deste texto foi no já distante ano de 1999.
Naquele ano, estivemos à frente de 119 salas de aula de jovens e adultos e,
para ajudarmos os trabalhos dos professores e alfabetizadores, os coordenadores
e supervisores pedagógicos da Secretaria Municipal de Educação criavam
apostilas, jogos, textos e estratégias que eram repassados em encontros mensais
nas sedes dos distritos. Trabalho cansativo, porém gratificante. No caso, refiz
partes deste e não esperem um texto extremamente técnico, pois não o é...
Difícil produzir uma
história naquele período. Hoje, continua difícil, porém há uma plêiade de
jovens beberibenses que estão reescrevendo a história da nossa terra. Tem
amigos professores que são chamamos em nosso meio, como os Alexandres (o
Grande, Gomes; o Pequeno, Rocha). Essa turma tem uma mestra que deu os
primeiros passos na construção de uma historiografia local, a professora Soraia
Colaço. Claro que não podemos esquecer dos escritos do Cônego Bessa, de Ana Facó,
de J.J. Dourado, de Boanerges de Queiroz Facó e tantos outros.
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| Histórico casarão do Sítio Lucas, em Beberibe, Ceará, Brasil. Foto da internet: site do Tripmondo |
Como dizia, naquele ano publicamos o texto reproduzido logo abaixo, hoje ampliado. Este texto ainda se encontra no site da prefeitura de Beberibe, junto com outro pesquisado e produzido na mesma época: o nome dos distritos, conforme se encontra no site desde 2015/2016. Nos detemos na origem dos nomes o melhor possível, sem avançar em aspectos geográficos, demográficos ou afins, porque não é nosso objetivo.
Para uma divisão enxuta e fora dos mapas tradicionais, basta dizer o seguinte quanto as grandes regiões do município: tabuleiro litorâneo, que compreende Beberibe, Sucatinga, Paripueira e Parajuru; várzeas do Piranji, que compreende o Itapeim e trechos dos distritos litorâneos e da Forquilha); e, serra seca e sertão, que conta com a Serra do Félix e Forquilha.
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| Bela imagem do entardecer nas internacionais falésias do Morro Branco. Imagem do Google. |
O NOME BEBERIBE
Quanto ao topônimo
"Beberibe", de origem indígena, há controvérsias quanto ao
significado do nome. Alguns apontam que o sentido é "no rio que vai e
vem", derivada de bibi-r-y-be, isto é, rio "cuja perenidade de curso
depende da maré", conforme registra Márlio Pelosi Falcão. Em outras
palavras: lugar que junta água (por causa da/conforme a maré). Se pensarmos a
região de Beberibe pelos seus aspectos geográficos, com seus rios, riachos,
baixios e centenas de lagoas, nada mais certo que pensar "lugar que junta
água". Mas, não é tão simples assim.
Vários autores, muitas opiniões. Luís Caldas Tibiriçá, por exemplo, diz que o topônimo vem de yabebiribe, derivado, por sua vez, de jabebyr-y-pe e significando "no rio das arraias". Outra opinião, a mais conhecida, vem de Paulino Nogueira que aponta "beberibe" como resultante de viba (= cana) e pype (= lugar onde), significando "lugar onde cresce a cana" e que seria, também, o nome "de uma frutinha comestível, da cor e tamanho do murici" (seria a ubaia?).
Silveira Bueno, por sua vez,
aponta a origem em yabebiry, significando "rio empolado, onduloso".
Já Eduardo Navarro, no seu Dicionário de tupi antigo, como L.C. Tibiriçá,
aponta o topônimo "beberibe" como originado do termo tupi îabebyrype,
que significa "no rio das arraias" (îabebyra, arraia + ‘y, rio + pe,
em).
Teodoro Fernandes Sampaio também corrobora esta última versão escrevendo
yabebiry, donde yabebir (= arraia), por ya-pé-byra significando "o que tem
a pele áspera ou pele de lixa", e y (= rio), mas também aponta a grafia
bibiribe, "no rio que vai e vem", de bibi (= o que vai e vem), y (=
rio), e pe ou be (= em).
O nome Beberibe pode ser uma referência às origens dos primeiros colonizadores da região, pois a capitania do Ceará passou muito tempo vinculada a Pernambuco. Beberibe é o nome de um rio que banha o Recife e dá nome a um bairro daquela metrópole e também foi o nome escolhido por Brasiliano Ferreira de Araújo para registrar as suas terras.
Rascunhos de Histórias.
A cidade de Beberibe está
localizada nas terras das datas de sesmarias concedidas ao capitão Domingos
Ferreira Chaves, Manuel Nogueira Cardoso, Sebastião Dias Freire e João Nóbrega
pelo capitão-mor Tomás Cabral de Olival, a 16 de agosto de 1691.
Em 1875, de uma área doada
para a construção da igreja, surgiria um povoado (naquela época já conhecido
pelo atual nome), hoje sede do Município. Por certo tempo, segundo algumas
fontes, Beberibe recebeu o nome de Vila Real em decorrência da riqueza oriunda
da cana-de-açúcar.
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| Igreja matriz. Foto da internet: site do Tripomondo. |
Parte do seu território era conhecido, antes
da chegada do homem branco, pela denominação de Uruanda. Os indígenas, entre
eles os potyguara e os jenipapo-kanyndé, que deram nome ao território foram
logo aculturados, extintos ou simplesmente expulsos. Segundo o ex-prefeito
Benedito Evaristo Pinheiro (já falecido), os últimos índios de Beberibe foram
apresados na Lagoa Achada e levados para o aldeamento de (São Sebastião da)
Paupina, Mecejana (Messejana), um bairro de Fortaleza.
Beberibe já foi distrito de Cascavel com o nome de Lucas (como distrito, foi suprimido em 7 de julho de 1835 e anexado ao então distrito cascavelense de Sucatinga). A sua primeira autonomia política veio em 5 de julho de 1892 (hoje comemorada como a data de criação do Município), sendo instalado em 18 de setembro de 1893. Tornou a ser distrito de Cascavel em 1920, voltando a ser reinstalado (autonomia) em 21 de outubro de 1926. Cinco anos depois, em 20 de maio de 1931, novamente foi reduzido à condição de distrito de Cascavel.
Foi restaurado como
município em 22 de novembro de 1953 e instalado oficialmente a 25 de março de
1955. Nesta última autonomia conquistada merece destaque, dentre outros, o
desembargador Boanerges de Queiroz Facó.
Sítio Lucas, Onde Nasceu Beberibe.
Sempre confessei meu carinho
pela comunidade do Sítio Lucas. Talvez por conta da primeira vez que a vi,
antes da fundação do bairro, mergulhada entre imensas árvores e um casarão de
histórias.
No início do século XIX,
Baltazar Ferreira do Vale mudou-se da cidade de Aquiraz, comprou o Sítio Lucas
e passou a morar no casarão que ainda existe, na principal via de acesso à comunidade.
O casarão passou por poucas mudanças ao longo dos séculos.
Um amigo de Baltazar, o
senhor Pedro de Queiroz Lima, comprou o Sítio Bom Jardim, no caminho que hoje
leva à comunidade dos Caetanos. As famílias desses dois amigos, juntas com
muitas outras que mudaram para cá, incluindo as nossas, foram e ainda são
importantes na a história de Beberibe.
Brasiliano Ferreira de
Araújo, descendente de Baltazar, quando foi registrar suas terras escolheu
batizá-las de Beberibe, termo que já devia ser usado para designar o lugar. No
ano de 1875, foi doada uma área para a construção da igreja e entono dela
surgiria o povoado.
O Sítio Lucas também é
chamado de Bairro Antonio Queiroz, uma homenagem ao ex-prefeito que doou parte
de suas terras para a construção de várias casas na comunidade. Até o final dos
anos de 1980, quando uma pessoa ia até o Macapá, andava num caminho cercado por
frondosas árvores, passava riacho na época das chuvas e andava numa estrada
vicinal de areia. Havia, mesmo naqueles tempos, pouquíssimas casas e nenhum
conjunto habitacional.
A
lenda de Maria Calado.
A lenda de Maria Calado é
tão forte no imaginário local que dá nome a principal avenida de acesso à
cidade de Beberibe. Reza a lenda, mais ou menos o seguinte: segundo testemunhos
dos antigos habitantes, pelos primeiros anos de 1700, houve um naufrágio de uma
embarcação portuguesa e uma sobrevivente, com sua família, veio ter às costas
beberibenses, precisamente na belíssima praia de Morro Branco (que assim toma para
si a primazia da gênese de Beberibe).
Essa sobrevivente, dona
Maria Calado, era fervorosa devota da Sagrada Família (o que explica a matriz e
paróquia de Jesus, Maria e José), e fizera a promessa de que, chegando em terra
com vida, mandaria levantar uma capela em honra aos santos de sua fé.
Diz-se que, após aportar no
Morro Branco, "adquiriu terras que confinam com a meia légua do rio Piranji”, a norte-sul,
e ainda “entre o rio Choró e a barra da lagoa do Uruaú”, a poente-nascente. “Ali
fixou a residência e fez construir a capelinha de sua promessa...”.
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| Bela imagem da pria do Morro Branco. Imagem do Google. |
Duas versões foram-me contadas. Dizia-se que a capela ficaria próxima da que hoje está diante do
casarão do Sítio Lucas, o que parece pouco verossímil. Acho mais provável o que
me foi contado por Benedito Evaristo Pinheiro: “A casa de Maria Calado ficava
no mesmo lugar onde foi erguida a residência do Coronel Biá; na frente da sua casa
ficava a capela e, por trás, o campo santo (cemitério) ”. Assim, em vez do
Morro Branco ou do Sítio Lucas, a gênese de Beberibe estaria onde hoje fica o
loteamento Planalto de Beberibe... Será?
Mais tarde, um dos chamados “moços
do Lucas – Brasiliano Ferreira de Araújo, neto de Baltazar Ferreira, o dono do
sítio Lucas, (...) levantou outra capela, sob o mesmo orago, em frente à sua
casa de residência na cidade de Beberibe. Anos depois, o coronel Raimundo José
Pereira Leite, homem rico de Cascavel, sobrinho e genro de Baltazar Ferreira do
Vale, do sítio Lucas, fez uma grande reforma na capela, tornando-a uma Igreja
Matriz”.
O
Cônego Bessa.
O padre Francisco Ribeiro
Bessa, o Cônego Bessa, tem sido esquecido na história recente de Beberibe. Sua
importância repousa no seu trabalho para a criação do distrito de Beberibe,
pela instalação de nossa freguesia e pela emancipação política do município.
Pertencente a um clã de
políticos e sacerdotes, foi deputado provincial por quatro legislaturas e
ajudou na independência política de cidades como Limoeiro do Norte, Cascavel e
Beberibe. Por isso, ao citá-lo, o que nos importa foi a sua fama de fundador de
paróquias e emancipador de cidades.
Em 1875, o Cônego Bessa veio
morar no Lucas (Beberibe), então pertencente a Cascavel, após ser nomeado
vigário coadjutor (substituto). O progresso da povoação do Lucas despertou nele
o desejo de aqui ser uma freguesia autônoma, e passou a buscar apoio nas
lideranças locais, mostrando-lhes as vantagens que teriam com a criação de uma
paróquia independente de Cascavel e com a futura emancipação municipal.
Em janeiro de 1879, a
localidade de Lucas tornou-se distrito e passou a se chamar Beberibe. Em 2 de
agosto de 1883, Cascavel foi elevado à categoria de cidade com grande atuação
do Cônego Bessa para que isso ocorresse. No dia 24 de novembro de 1883, foram
criados, ao mesmo tempo, o distrito de Beberibe no município de Cascavel, e a
paróquia de Beberibe, compreendendo a povoação de Beberibe, o distrito de
Sucatinga e parte do distrito de Paripueira, que então pertencia a Aracati.
Em 21 de julho de 1885,
Bessa recebeu a dignidade de cônego e foi nomeado padre da freguesia de
Beberibe. Três anos depois ele abdicou desta paróquia, porém continuou
exercendo o sacerdócio na capela de Nossa Senhora da Penha, em Paripueira, até
quase a sua morte, em 1890. Dois anos depois, Beberibe encontraria a sua
independência política.
OS DISTRITOS
A gênese dos distritos de
Beberibe passa pela criação do primeiro município cearense, Aquiraz (13/2/1699).
Daí, passa para Cascavel (5/5/1833) e, finalmente, Beberibe (5/7/1892). Sucatinga
é o mais antigo dos distritos, superando em idade a própria sede municipal; Forquilha, o
mais novo.
Uma possível organização
dessa gênese seja esta:
Aquiraz
>Cascavel
>Beberibe
>Sucatinga (antes Mamoeiro)
>Cascavel
>Beberibe
>Sucatinga (antes Mamoeiro)
Beberibe (antes Lucas)
Parajuru (antes Paripueira(s), Barrinha)
Itapeim (antes Cruzeiro, Ingá)
Paripueira (reinstalação;
Barrinha, São Bernardo?)
Serra
do Félix
Forquilha
DISTRITO DE SUCATINGA
O nome Sucatinga, conforme
registra Márlio Pelosi Falcão, é de origem indígena, derivada de suca (=
vomitar, sentir-se mal, mal estar) e tinga - ou tingab (= "fastioso",
enjoativo, branco, brancura), significando, figurativamente, "sentir o
cheiro", "tomar o faro" (da caça?). Pode ser, ainda, derivada de
soó-catinga (caatinga?), cuja tradução é "catinga (caatinga) de
bicho", catinga (caatinga) de caça", ou seja, campo ou mata de caça.
Segundo Luís Caldas Tibiriçá, Sucatinga pode ser uma alteração de
suassu-catinga, o "nome regional do veado catingueiro", mais uma vez
ressaltando o local como propício à caça.
Já li, também, a versão de “mata
dos jucás, mata do ipê branco” e até “socó branco” (socatinga). Não há
subsídios para desenvolvê-los, no momento. Ainda estou a vasculhar Serraine,
Pelosi, Paulino, Studart e outras fontes que possam embasar uma melhor
explicação. Pessoalmente, gosto da versão "campo de caça".
Historicamente, o distrito
de Sucatinga foi criado pela Câmara Municipal de Cascavel, em 18 de novembro de
1833. A povoação inicial chamava-se Mamoeiro e foi desmembrado de Aquiraz,
naquele mesmo ano (1833), para formar o município de Cascavel. Pelo Decreto
Estadual nº 448, de 20 de dezembro de 1938, parte do território do distrito de
Sucatinga, juntamente com parte do Distrito de Cruzeiro (atual Itapeim), foi
desmembrado para que fosse criado o Distrito de Paripueira. Seus limites foram
redefinidos pela Lei Municipal 318/90.
Não vale a lenda popular do índio Tinga, que não queria trabalhar no pilão e mandavam, insistentemente: "Soca, Tinga! Soca, Tinga!".
DISTRITO DE PARIPUEIRA
O termo
"paripueira" (ou no plural, "paripueiras") é uma palavra
oriunda do tupi e, segundo Luís Caldas Tibiriçá, deriva de pari-puera,
significando "antigo pesqueiro". Pode significar, ainda, "curral
ou cercado velho", derivado de pari (= cercado, curral, cerca), mais quera
(= que foi), ou ainda "canal velho" através da junção de pari (canal)
e pûera (velho). Já Raimundo Costa Aragão aponta que o termo vem de pari (=
jiqui), mais puera (= que já foi e não é mais).
Algumas considerações a
fazer que podem ajudar no entendimento do significado do topônimo paripueira:
jiqui/jequi/jequiá/juquiá deriva do tupi "iekeí" e é uma espécie de
cesto de pesca, afunilado e oblongo (mais cumprido que largo), feito de
taquaras flexíveis; por sua vez, pari (do tupi parí) é uma armadilha de pesca
que consiste em uma parede feita de estacas, que atravessa o rio, ou outro
curso d'água, de um barranco a outro, tendo ao meio uma abertura por onde os
peixes atravessam e ficam retidos; ipueira é o charco formado pelo
trasbordamento de um rio em lugares baixos, ou, no mesmo sentido, lugar (raso)
em que se acumula água, um poço d'água (ou águas mansas - pari = águas, pueira
= mansas); para ipueira, Silveira Bueno diz ser "rio que corria e já não
corre", onde y = água e puera = que já foi e não é mais; e, ipu pode ser
fonte, terreno úmido, várzeas ou vales por onde corre a água.
O distrito beberibense que
leva este nome constava como pertencente a Aracati entre os anos 1848-1855,
incluindo então a Barrinha (Parajuru). Inicialmente denominou-se Barrinha
(decreto estadual nº 1156, de 04/12/1933), depois adotando o nome de São
Bernardo (?), ao passar para Cascavel. Paripueiras foi, também, a denominação
original do distrito de Parajuru, conforme a Lei nº 5, de outubro de 1937. Pelo
decreto estadual nº 448, de 20 de dezembro de 1938, é criado o distrito de
Paripueira (então pertencente a Cascavel), com terras desmembradas dos
distritos de Sucatinga e Cruzeiro (Itapeim).
Em 22 de novembro de 1951,
pela lei estadual nº 1153, Paripueira aparece entre os distritos desmembrados
de Cascavel para formar o município de Beberibe, juntamente com os então
distritos cascavelenses de Beberibe, Itapeim, Parajuru e Sucatinga. Paripueira
tornou-se município em 9 de agosto de 1963, sendo extinto antes de ser
instalado, em 14 de dezembro de 1965. Seus limites foram
redefinidos pela Lei Municipal 318/90.
DISTRITO DE PARAJURU
O topônimo
"parajuru" deriva de pará (= rio), mais juru (= boca), significando
"boca (ou foz) do rio". Silveira Bueno diz que significa "rio
dos jurus", onde pará significa rio e juru (ou yuru, ou aiurú) é o nome de
"certo galiforme da família dos Fasianídeos", que apresenta certa
dificuldade para demonstrar. Seria o uru-do-nordeste (Odontophorus capueira
plumbeicollis), endêmico dos "brejos" de altitude do Nordeste
brasileiro e hoje ameaçado de extinção? Mas existe uma ave psitacídea (Amazona
farinosa), chamada juru, ou ainda jeru, ajuru (tem tribo amazônica com este
nome), ajuruaçu, juruaçu e moleiro (papagaio-moleiro, daí alguém dizer juru ser
"ave multicor" ou "bico").
| Lagoa de Uruaú, divisa dos distritos de Beberibe e Sucatinga. |
A história de Parajuru confunde-se com a de Paripueira e com os municípios de Aracati e Cascavel. Consta, às vezes, entre os distritos de Aracati no período 1849-1860. Em 1851 aparece como pertence a Cascavel, ano em que foi extinto. Em 1920 consta no Censo Demográfico como distrito de Aracati.
Pela lei nº 5, de de outubro
de 1937, teve como nome original Paripueiras. Em 2 de agosto de 1929 passa a
chamar-se Barrinha, por força da lei 2677, daquela data. Em 30 de dezembro de
1943, pelo decreto-lei estadual nº 1114, outra vez distrito de Cascavel, recebe
o nome de Parajuru. Pela lei estadual nº 1153, de 22 de novembro de 1951, é
desmembrado de Cascavel e passa a fazer parte do município de Beberibe, outra
vez reinstalado.
Parajuru já foi município,
criado em 21 de julho de 1963 e extinto em 14 de dezembro de 1965, antes de ser
oficialmente instalado. Seus limites foram redefinidos pela Lei Municipal
318/90.
| Imagem da arte das areias coloridas. Foto própria. Para saber mais sobre silicografia: http://emblogone.blogspot.com.br/2015/03/silicografia-arte-das-areias-coloridas.html |
DISTRITO DE ITAPEIM
Escrever sobre distritos e
quase sem prova documental é bastante difícil. Tomamos por base, muitas vezes,
citações de historiadores, a memória popular e completamos com alguma tradição.
Ainda existem registros. O Itapeim apresenta certos desafios.
Lembro duma mensagem (pelo
Messenger) que passei para a maior historiadora viva de Beberibe, a professora
Soraia Colaço. Foi no dia 14 de abril de 2016 e abordava uma dessas dificuldades:
Estou com dificuldades para determinar a data
de criação do distrito de Cruzeiro (Itapeim). Tentei Cascavel e a Câmara
Municipal daqui. Nada. Falta a Assembleia Legislativa... Ou Aracati. Falam dos
anos de 1850, mas o Cruzeiro começa a aparecer como distrito no século XX. Talvez
a Lei Estadual 1.153, de 22/11/1951 ou 53... Pelo Decreto Estadual nº 1156
(04/12/1933), Cascavel adquiriu Beberibe, que fora extinto. Na divisão
administrativa do ano de 1933, Cascavel já possui 9 distritos: Cascavel,
Bananeiras, Barrinha, Beberibe, CRUZEIRO, Jacarecoara, Palmares, Pitombeiras e
Sucatinga. ENTÃO, A CRIAÇÃO DO DISTRITO DE ITAPEIM DEVE TER OCORRIDO ENTRE 1911
E 1933.
A onda nacionalizante dos
topônimos, durante o Estado Novo, atinge o Cruzeiro, doravante Itapeim. Seria
fácil dizer que em tupi-guarani significa literalmente ¨a laje pequena¨ (“itapeí”).
Ou simplesmente dizer que significa “caminho das pedras”, derivando de “itá”
(pedra), mais “peií” (caminho estreito, batido). Mas, não é tão fácil assim. Márlio
Pelosi Falcão diz que a composição “ita” (pedra), mais “pe” (em, no), mais “i”
ou “y” (rio, água), mais o sufixo diminutivo “in” (im) significa “no rio das
pedras pequenas” ou “o caminho das pedras”. Poderia, no final, ser uma
contração de Itapemirim, localidade que fica na margem oposta do rio.
Itapemirim também pode ser
explorado em seus significados. Tapemirim (ou tapemiry), teriam o mesmo
significado de pequeno caminho (“t-apé” = caminho; “mirim”, ou “miry” = pequeno).
Por outro lado, pode ser confundido com “tape” (aldeia) + “mirim” (pequena), ou
seja, pequena aldeia. Só para comparação: itapema pode ser traduzida como de
pedra rasa, lajeado; itapé, por sua vez, pode ser traduzido por “o caminho de
pedra” ou “calçada” (“itá” + “apé”), “a pedra chata” ou “laje” (“itá” + “pe” (“peba”)),
e o “caminho dentro d'água” (“i” + “t” + “apé” (“t-apé”)).
Na verdade, “ita” significa
pedra e “itape” quer dizer laje. Quem andou, como eu, na região do Itapeim
antes da construção da ponte lembra de como era o acesso, tanto lá quanto
descendo o rio Piranji: as pedras (lajes) que afloravam permitiam uma passagem
mais segura quando chegavam as primeiras chuvas. Se o “i” inicial for uma
referência a água, o significado real será "pequeno caminho na água"
(passagem) ou “pequeno caminho de água” (fio d’água entre o lajeado). Ou seja: “I”,
ou “Y”, (água), mais “t-apé” (caminho, lajeado?), mais “in” ou “im”, a contração
de mirim (?), significando pequeno.
Como foi dito acima, parte
de seu território foi cedido para a recriação do distrito de Paripueira (20/12/1938).
Já foi chamado de Ingá e de Cruzeiro, denominação que aparece nos registros do
censo demográfico de 1920. Com o Decreto de nº 1114, de 30 de dezembro de 1943,
passa a chamar-se de Itapeim. Já foi município, criado pela lei 6947, de 19 de
dezembro de 1963, sendo extinto antes de ser instalado, pela lei 8339, de 14 de
dezembro de 1965.
Segundo a memória local, no
ano de 1887 a comunidade “era apenas um arraial com poucos moradores”. No ano seguinte,
1888, um “peregrino, que atendia pelo nome de Luiz”, ergueu uma cruz nas
proximidades do rio Piranji. Com o tempo, a cruz serviu de referência e o lugar
passou a ser chamado Cruzeiro. Dois grandes proprietários de terras na região,
os irmãos Raimundo e Joaquim Ribeiro, se encarregaram de construir uma igreja
com os esforços da comunidade, tendo como padroeiro São João Batista.
DISTRITO DE SERRA DO FÉLIX
O distrito de Serra do
Félix, criado pela lei 11.384, de 18 de dezembro de 1987, nasceu das terras
desmembradas do Itapeim e do Parajuru. Seus limites, como de outros distritos,
foram redefinidos pela Lei Municipal 318/90. É uma localidade remota, cuja
beleza sertaneja se revela única, rústica e misteriosa, com pessoas que dão boa
acolhida e sorriso fácil, que dista 44 km da sede municipal.
Leva esse nome – Serra do
Félix – por conta da sua principal vila estar situada numa serra seca e ter,
entre seus desbravadores, o já lendário Félix Bernardo, “caçador de onça” que
veio do Aracati para residir na localidade de Forquilha, e que hoje é
considerado o descobridor oficial da serra.
Os primeiros povoadores
moravam no Vale da Serra, comunidade próxima a atual sede do distrito. Depois,
outras famílias, como os Morais, vindos dos lados de Russas pelos idos do século
XIX, estabeleceram-se no local. Foi, aliás, um membro desta família, de nome
Baltazar José da Cunha, que de fato fundou a localidade. Seu neto, Sabino
Antonio, nos anos 30, construiu uma capela em frente da sua casa, o que fez
desenvolver a atual vila.
DISTRITO DE FORQUILHA
Comemora-se como fundação do
distrito Forquilha o dia 26 de setembro de 2005. Antes, a maior parte de seu
território pertencia ao Parajuru. Localizada às margens da BR-304, a comunidade,
embora ainda carente, vem crescendo em torno do caju e das suas escolas. Segundo
os mais antigos moradores, a comunidade tem história secular, por volta de 400
anos. Historicamente, a comunidade de Forquilha está integrada aos municípios Russas
e Aracati, o que explicaria tal antiguidade.
Sua história está em
construção. É o mais novo dos sete distritos que formam o município de Beberibe
e um dos que têm progredido continuamente, em especial nos últimos anos.
Cercado pela agroindústria do caju, cortado pela BR-304 e pelo Canal do
Trabalhador, o distrito de Forquilha tem o potencial necessário para atrair
investimentos e tornar-se modelo de desenvolvimento.
Quanto a origem do nome, não
consegui maiores resultados, embora em 1997 lembro de uma senhora falar sobre a
origem dos primeiros habitantes e sobre uma forquilha que servia de referência
para viajantes. Pode ser, porém minha memória não é mais a mesma e perdi a
maior parte das anotações daquele período. Precisarei de ajuda ou voltar a
campo para coletar tais informações.
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
A CIDADE PERDIDA DE ALEXANDRE, O GRANDE.
Uma cidade antiga que se acredita ter sido fundada na era de Alexandre, o Grande, foi descoberta depois de ter sido perdida nas areias da história, há mais de dois mil anos.

Qalatga Darband, que tem vista para um rio na província de Sulaimaniya, no Curdistão iraquiano, carrega os traços de um antigo assentamento fortificado, e agora, os arqueólogos, finalmente, pisaram na área escondida.
Embora os investigadores não tenham ainda avançado com uma data adequada, pensa-se que o assentamento aconteceu depois de Alexandre, o Grande, ter entrado na batalha contra o rei persa Darius III, na antiga Mesopotâmia.
Derrubar impérios é uma tarefa difícil – e que dá bastante sede! – e Qalatga Darband – que se traduz, grosso modo, em curdo, como “castelo da passagem da montanha” – pode ter sido o lar de um comércio de vinho usado por soldados e comerciantes que trabalhavam no caminho da glória.
“Estamos nos primeiros dias, mas pensamos que seria uma cidade movimentada numa estrada do Iraque para o Irão”, diz o arqueólogo John MacGinnis, do Museu Britânico, em declarações ao jornal The Times. “Pode-se imaginar as pessoas a fornecer vinho aos soldados que passavam”, sugere.
MacGinnis e a sua equipa estão a cargo do Esquema de Formação de Gestão de Emergência do Patrimônio do Iraque, treinando investigadores iraquianos para identificar e resgatar tesouros arqueológicos insubstituíveis da ameaça de destruição do Estado islâmico.
Surpreendentemente, as descobertas de Qalatga Darband foram também corroídas pela guerra, embora numa era muito diferente de conflito humano.
Fotografias tiradas da região por satélites de espionagem dos EUA, na década de 1960, durante a Guerra Fria, no âmbito do programa Corona, foram retiradas do estado confidencial na década de 1990, o que ajudou os investigadores a identificarem o contorno dos restos antigos da cidade.
A guerra na região impediu os arqueólogos de olharem mais atentamente para o caso, até ao Século XXI, quando investigadores utilizaram drones para pesquisar a paisagem, identificando variações subtis no crescimento da colheita que agora cobre a cidade antiga.
“O drone produziu excelentes informações”, diz MacGinnis. “Analisar marcas de colheita é algo que não foi feito na arqueologia mesopotâmica. Onde há paredes subterrâneas, o trigo e a cevada não crescem tão bem, então há diferenças de cores no crescimento da safra”, acrescenta o investigador.
Até agora, as investigações no terreno revelaram os fundamentos de uma série de grandes edifícios no solo, incluindo uma parede fortificada e prensas de pedra que podem ter sido utilizadas na produção de vinho ou óleo.
Também foram descobertos azulejos e estátuas no sítio arqueológico, com figuras que representam a deusa grega Perséfone e o seu amado Adónis. Até agora, não está claro de quando estas relíquias datam exatamente, já que a pesquisa ainda está em andamento, mas a equipa acha que as descobertas podem ser do primeiro ou segundo Séculos antes de Cristo.
Uma moeda descoberta na cidade mostra o rei do império parta Orodes II, que governou entre 57 a.C. a 37 a.C., por isso é provável que a cidade ainda estivesse em uso muito tempo após a era de Alexandre, O Grande, e que possa ter sido fundada em grande parte depois do seu exército de guerra ter passado pela região.
Espera-se que a escavação continue até 2020, pelo que há boas possibilidades de descobrir muito mais sobre esta cidade perdida de outra era e resolver alguns dos seus extraordinários mistérios.
FONTE - ZAP // Hypescience

Qalatga Darband, que tem vista para um rio na província de Sulaimaniya, no Curdistão iraquiano, carrega os traços de um antigo assentamento fortificado, e agora, os arqueólogos, finalmente, pisaram na área escondida.
Embora os investigadores não tenham ainda avançado com uma data adequada, pensa-se que o assentamento aconteceu depois de Alexandre, o Grande, ter entrado na batalha contra o rei persa Darius III, na antiga Mesopotâmia.
Derrubar impérios é uma tarefa difícil – e que dá bastante sede! – e Qalatga Darband – que se traduz, grosso modo, em curdo, como “castelo da passagem da montanha” – pode ter sido o lar de um comércio de vinho usado por soldados e comerciantes que trabalhavam no caminho da glória.
“Estamos nos primeiros dias, mas pensamos que seria uma cidade movimentada numa estrada do Iraque para o Irão”, diz o arqueólogo John MacGinnis, do Museu Britânico, em declarações ao jornal The Times. “Pode-se imaginar as pessoas a fornecer vinho aos soldados que passavam”, sugere.
MacGinnis e a sua equipa estão a cargo do Esquema de Formação de Gestão de Emergência do Patrimônio do Iraque, treinando investigadores iraquianos para identificar e resgatar tesouros arqueológicos insubstituíveis da ameaça de destruição do Estado islâmico.
Surpreendentemente, as descobertas de Qalatga Darband foram também corroídas pela guerra, embora numa era muito diferente de conflito humano.
Fotografias tiradas da região por satélites de espionagem dos EUA, na década de 1960, durante a Guerra Fria, no âmbito do programa Corona, foram retiradas do estado confidencial na década de 1990, o que ajudou os investigadores a identificarem o contorno dos restos antigos da cidade.
A guerra na região impediu os arqueólogos de olharem mais atentamente para o caso, até ao Século XXI, quando investigadores utilizaram drones para pesquisar a paisagem, identificando variações subtis no crescimento da colheita que agora cobre a cidade antiga.
“O drone produziu excelentes informações”, diz MacGinnis. “Analisar marcas de colheita é algo que não foi feito na arqueologia mesopotâmica. Onde há paredes subterrâneas, o trigo e a cevada não crescem tão bem, então há diferenças de cores no crescimento da safra”, acrescenta o investigador.
Até agora, as investigações no terreno revelaram os fundamentos de uma série de grandes edifícios no solo, incluindo uma parede fortificada e prensas de pedra que podem ter sido utilizadas na produção de vinho ou óleo.
Também foram descobertos azulejos e estátuas no sítio arqueológico, com figuras que representam a deusa grega Perséfone e o seu amado Adónis. Até agora, não está claro de quando estas relíquias datam exatamente, já que a pesquisa ainda está em andamento, mas a equipa acha que as descobertas podem ser do primeiro ou segundo Séculos antes de Cristo.
Uma moeda descoberta na cidade mostra o rei do império parta Orodes II, que governou entre 57 a.C. a 37 a.C., por isso é provável que a cidade ainda estivesse em uso muito tempo após a era de Alexandre, O Grande, e que possa ter sido fundada em grande parte depois do seu exército de guerra ter passado pela região.
Espera-se que a escavação continue até 2020, pelo que há boas possibilidades de descobrir muito mais sobre esta cidade perdida de outra era e resolver alguns dos seus extraordinários mistérios.
FONTE - ZAP // Hypescience
sábado, 10 de junho de 2017
domingo, 19 de março de 2017
PORQUE OS PREFEITOS NÃO DEVEM APOIAR A REFORMA DA PREVIDÊNCIA.
Onésimo Remígio
Pres. APEOC Beberibe
Caso seja aprovada, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 287 vai impactar negativamente a economia da maioria dos munícipios brasileiros. Isso porque em 70% deles os valores repassados para os aposentados e demais beneficiários juntos somam mais que os repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Em mais de 80% do total de municípios, a verba originária da Previdência é superior à própria arrecadação municipal.
Com a
reforma, a maior parte das municipalidades vai empobrecer. Efeito em cadeia, sem os recursos provenientes da
Previdência cai a arrecadação e, com a queda da arrecadação, o FPM é reduzido.
E aqui que se revela a importância da Previdência para a sociedade, para a economia
e para a gestão pública locais.
O
dinheiro pago aos aposentados e pensionistas é o motor da economia de mais de 3
mil municípios no país. Sem ele, o empobrecimento e falências crescerão. Com a
queda acentuada da renda municipal, muitos prefeitos terão dificuldades de gerir
a máquina pública.
Caso ocorra
a reforma da Previdência como está na PEC 287, alguns municípios podem voltar a
ser distritos. Pela sua dimensão, a Previdência Social é, sem dúvidas, o maior aparelho
estatal de distribuição e interiorização da renda no país. A maior parte dos
benefícios é paga às regiões Sudeste (44%), Nordeste (27,40%) e Sul (17,4%) do Brasil,
onde os municípios mais pobres são os maiores beneficiados, e eles terão, a
médio prazo, que enfrentar a oferta e manutenção dos serviços públicos com a
brutal queda de arrecadação ocasionada pela PEC
287.
Os
pequenos municípios, os municípios com baixa arrecadação terão que aperfeiçoar
suas máquinas administrativas, enxugando-as, e também passarão a cobrar o IPTU,
algo que todo prefeito evita por significar perda de voto. Junto com isso, especialistas
dizem que ocorrerá êxodo rural e todos os problemas advindos com o mesmo: inchamento
das cidades, queda da produção agrícola, marginalização...
Com a PEC
287, homens e mulheres só poderão requerer o benefício a partir de 65 anos de
idade. Os trabalhadores terão que contribuir durante 49 anos para acessar o
benefício integral e o tempo mínimo de contribuição exigido pelo governo
saltará de 15 anos para 25. Famílias empobrecidas irão sustentar seus idosos e
o município terá que aperfeiçoar seu atendimento à Terceira Idade. Uma virada e
tanto no quadro atual, onde o aposentado ajuda na manutenção familiar e movimenta
a economia municipal.
1919 – O primeiro Partido Comunista do Brasil e a Revolução Russa
O texto de Augusto Buonicore conta-nos a história do primeiro Partido Comunista do Brasil.
Poucos dias depois da realização do congresso de fundação da 3ª Internacional, em março de 1919, os jornais operários anunciavam a criação do Partido Comunista do Brasil. Isso mesmo: um primeiro PCdoB havia sido fundado no início daquele agitado ano de 1919. A ele se vincularam as mais expressivas lideranças do anarquismo. A organização teve uma vida curta, mas intensa. Enquanto durou, foi uma das principais defensoras de Lênin e da Revolução Russa no país. Conheça um pouco desse estranho caso, que faz parte da gloriosa e desconhecida história do movimento operário brasileiro.
| Lideranças anarquistas que organizaram o PCdoB de 1919. De pé, Octávio Brandão, Astrojildo Pereira e Afonso Schidt. Sentados, Edgard Leunroth e Antonio Bernardo Canellas. |
Nos primeiros dias de março de 1919 foi fundada em Moscou a 3ª Internacional, ou Internacional Comunista (IC). Uma das indicações aprovadas naquele conclave foi para que os partidos socialistas revolucionários passassem a se chamar comunistas, visando distingui-los dos antigos partidos pertencentes à II Internacional, que falira em 1914. Por coincidência ou não, poucos dias depois, aparece a seguinte notícia num jornal anarquista brasileiro: “Diante do entusiasmo que reina nas classes trabalhadoras em geral pelos movimentos que se desenvolvem no mundo, tendentes a uma transformação social e amplamente baseada nas idéias comunistas, os libertários do Rio de Janeiro reunidos no dia 9 do corrente mês (março), acordaram formar o PC do B”.
O mundo burguês estava em ebulição graças à vitória da Revolução Socialista na Rússia em 7 de novembro de 1917. No ano seguinte, os operários alemães derrubaram a monarquia e proclamaram a República. Em janeiro de 1919 ocorreu o levante dos spartaquistas (comunistas), esmagado pelo exército. Entre 21 de março e 1º de agosto existiu uma República dos Conselhos na Hungria; e entre 6 de abril a 3 de maio uma República soviética na Baviera. A Itália, por sua vez, vivia o seu Biênio Vermelho, que culminou no movimento de ocupação de fábricas em Turim. Os trabalhadores conscientes dos quatro cantos do planeta passaram a ficar de olhos nos acontecimentos europeus, especialmente os que ocorriam na Rússia soviética. Para eles o herói do momento era Lênin, mesmo sem conhecê-lo muito bem.
No Brasil as coisas não eram muito diferentes. Em junho de 1917 – mês que intermedeia as duas etapas da revolução russa – ocorreu uma greve geral na qual os operários tomaram conta das ruas de São Paulo. O governo local se viu obrigado a fugir e se abrigar na cidade portuária de Santos. Após o final da Primeira Guerra Mundial (1918) desenvolveu-se uma nova onda de greves e tentativas de sublevações. Em novembro de 1918 os anarquistas tentaram, sem sucesso, realizar uma rebelião no Rio de Janeiro, então capital da República.
Nos primeiros dias de março de 1919 foi fundada em Moscou a 3ª Internacional, ou Internacional Comunista (IC). Uma das indicações aprovadas naquele conclave foi para que os partidos socialistas revolucionários passassem a se chamar comunistas, visando distingui-los dos antigos partidos pertencentes à II Internacional, que falira em 1914.
Por coincidência ou não, poucos dias depois, aparece a seguinte notícia num jornal anarquista brasileiro: “Diante do entusiasmo que reina nas classes trabalhadoras em geral pelos movimentos que se desenvolvem no mundo, tendentes a uma transformação social e amplamente baseada nas idéias comunistas, os libertários do Rio de Janeiro reunidos no dia 9 do corrente mês (março), acordaram formar o PC do B”. No programa provisório afirmava-se “o PC do B manterá relações com todos os seus afins no exterior, com os quais será solidário”. A nova organização abriria as suas portas para os “anarquistas, socialistas e todos aqueles que aceitassem o comunismo social”. Segundo Astrojildo Pereira, “a idéia desse partido nasceu nos primeiros meses daquele ano de 1919, e logo se pôs em prática depois de rápidos entendimentos entre os militantes mais ativos do movimento operário do Rio e de outros Estados.”
Seu órgão oficioso passou a ser o jornal Spartacus, mas a nova organização dita comunista desfrutaria da simpatia da quase totalidade das publicações anarquistas e socialistas de esquerda. Era tida – ainda que ingenuamente – como a expressão brasileira da revolução bolchevique em curso. Uma curiosidade é que essa mesma imprensa deu ao partido que nascia a sigla PC do B e não PCB, como seria mais natural.
O primeiro evento público realizado por aquele Partido Comunista do Brasil foi uma homenagem à Comuna de Paris, ocorrido em 18 de março. Alguns dias depois ele convocou um novo ato visando responder aos ataques desferidos por Rui Barbosa contra os líderes da revolução russa. O intelectual conservador baiano acusou Lênin e Trotsky de serem “agentes estrangeiros”. Falsidade, mundialmente difundida pelas agências noticiosas internacionais, que tinham por objetivo isolar a Rússia revolucionária e, assim, justificar a intervenção das potências imperialistas.
Naquele evento aprovou-se uma moção que dizia: “considerando que a projetada intervenção das forças aliadas na Rússia e na Hungria constitui um atentado às liberdades tão grandemente apregoadas durante a guerra pelos próprios governos aliados, o Partido Comunista do Brasil (…) protesta veementemente contra tal intervenção e lança um apelo à humanidade para que seus representantes conscientes se rebelem contra tal violência e se lhe anteponham todos os obstáculos possíveis”. A defesa da revolução russa passava a ser a principal bandeira do movimento operário e revolucionário, entre os quais se incluíam os anarquistas.
O recém-criado Partido Comunista do Brasil foi o principal organizador do Primeiro de Maio daquele ano no Rio de Janeiro. Ele ocorreu na Praça Mauá e foi considerada uma das maiores manifestações operárias realizadas até então, contando com a presença de aproximadamente 60 mil pessoas.
O jornal A Razão descreveu o evento: “Em torno do pedestal da estátua do Visconde do Rio Branco estavam os representantes do Partido Comunista do Brasil e a comissão organizadora do comício, que pouco depois era iniciado pelo Sr. José Fernandes, que falou em nome do Partido Comunista”. Outro orador foi José Elias da Silva que criticou “acremente a atual organização social, referindo-se à revolução russa que elogia, no que é novamente aclamado pela multidão”. Os manifestantes seguiram em passeata através da Avenida Rio Branco cantando A Internacional e carregando estandartes que diziam: “Salve a Hungria livre!” e “Homenagem à Baviera emancipada!”. Nas escadarias do Teatro Municipal o povo aclamou uma moção afirmando: “O proletariado do Rio de Janeiro, reunido em massa na praça pública e solidário com as grandes demonstrações mundiais dos trabalhadores, neste 1º de Maio, envia uma saudação especial de simpatia ao proletariado russo, húngaro e germânico e protesta solenemente contra qualquer intervenção burguesa, tendo por fim atacar a obra revolucionária tão auspiciosamente encetada na Rússia”. Nas manifestações que ocorreram por todo país o que mais se ouviu foram vivas a Lênin e à revolução proletária internacional.
Neste mesmo dia, num ato realizado no Teatro Recreio de Niterói, um orador afirmou: “Não é um homem, é um povo; mais que um povo, uma idéia, uma grande aspiração. É o símbolo de uma época e amanhã, quando nossos filhos estudarem a história de seus avôs, lhe chamarão de o ‘libertador’. O que fez esse homem? Uma revolução, mais do que uma revolução, uma enorme transformação. Não querem o seu retrato na apoteose, insensatos?! Não vêem que seu retrato, sua idéia, está no espírito de quantos o sabem amar? Como se chama esse homem?
‘- E o orador com a sua voz robusta clama: – Lênin.
O Teatro Recreio parecia ruir. Um brado uníssono de aplausos ecoou e o nome de Lênin foi repetido com vigor por todos os presentes.
Dos camarotes as moças agitam o lenço e atiram flores à platéia. O entusiasmo foi extraordinário. Durante cinco minutos só se ouviam vivas à revolução, a Lênin e a Trotski.”
Em 13 de maio o Partido Comunista realizou uma atividade comemorativa ao aniversário da abolição da escravidão. No final daquele mês a recém-criada Liga Comunista Feminina, dirigida por Maria de Lourdes Nogueira, resolveu aderir ao PCdoB. Núcleos intitulados comunistas foram sendo formados em vários estados. Em 16 de junho, na sede de uma organização de trabalhadores em hotéis e restaurantes, foi criada uma seção do PCdoB em São Paulo.
O próximo passo seria organizar uma conferência nacional com representantes comunistas dos diversos estados e, de fato, constituir uma organização de caráter nacional. Algo relativamente novo na cultura política do país, marcada pelo regionalismo organizativo. Entre os dias 21 e 23 de junho realizou-se no Centro Cosmopolita, na cidade do Rio de Janeiro, a Primeira Conferência Nacional dos Comunistas brasileiros. Dela participaram 22 delegados, representando 6 estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Alagoas e Paraíba). Destes 17 eram brasileiros natos e 3 mulheres. Também acompanharam atentamente os trabalhos cerca de uma centena de operários. Contudo, no segundo dia, a polícia impediu o acesso ao local da reunião e ela teve que prosseguir na vizinha de Niterói. A imprensa operária e oposicionista deu cobertura ao evento.
Este primeiro Partido Comunista do Brasil foi muito ativo nos poucos meses que existiu. Em 14 de julho realizou a tradicional homenagem ao aniversário da tomada da Bastilha. O palestrante principal foi José Oiticica. O documento aprovado pelos presentes afirmava: “Os comunistas, membros do Partido Comunista do Brasil (…) reunidos em sessão solene para comemorar a grande data da Tomada da Bastilha, atendendo ao apelo da Internacional Comunista, aprovaram uma moção de solidariedade à ação internacional, preparando-se para secundar a obra dos comunistas europeus, na remodelação das instituições da sociedade atual, para estabelecer um regime baseado na verdadeira Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.
Alguns dias depois, 21 de julho, o PCdoB buscou responder à conclamação de algumas centrais sindicais européias – ligadas aos comunistas e anarquistas – no sentido de realizar uma greve geral internacional contra a intervenção das potências estrangeiras na Rússia e na Hungria. Paralisações e protestos públicos realizaram-se por todo país. No Rio de Janeiro um ato reuniu 5 mil pessoas, apesar da forte repressão policial.
Uma curiosidade: no Brasil os bolcheviques eram chamados de maximalista por um erro na sua tradução do russo. Bolchevique significava maioria – devido à vitória parcial obtida pelo grupo de Lênin no II Congresso do POSDR em 1903. Menchevique, por sua vez, significava minoria. Mas, entre nós, ocorreu um mal-entendido. No folheto “O que maximismo ou bolchevismo: programa comunista”, publicado em 1919, Edgard Leuenroth e Hélio Negro escreveram: “Bolche significa máximo e Menche quer dizer mínimo (…). Portanto, a tradução de Bolchevique é Maximismo e de Menchevique é Minimismo”. Continua o texto: “Maximistas são os adeptos do programa máximo do partido socialista, e minimistas são os partidários do programa mínimo”.
Os anarquistas brasileiros logo simpatizaram e buscaram aderir à corrente que lhes parecia a mais radical: a maximalista. Ainda não tinham muita clareza que os bolcheviques (ou maximalistas) de Lênin eram na verdade marxistas ortodoxos e não tinham nenhuma relação ou simpatia pelo anarquismo.
O jornal A Plebe assim havia noticiado a Conferência de 1919: “Uma notícia animadora para todos aqueles que participam do movimento anarquista: iniciam-se hoje, no Rio de Janeiro, a primeira Conferência Comunista do Brasil (…). A Conferência não vai legislar, nem ditar ordens. Os companheiros que nela vão se encontrar tratarão apenas de ventilar iniciativas, trocando opiniões e propósitos da organização do Partido Comunista, das suas bases federativas e que deverá desenvolver em prol de nosso ideal.” E conclui: “Saudamos, pois, os camaradas que hoje se reúnem no Rio dando vivas à anarquia”.
Ou seja, aquele partido que se dizia comunista era na verdade anarquista. Sabemos que partido anarquista é um contra-senso. O anarquismo, por princípio, abomina o Estado e os partidos políticos em geral. Essa extravagância só foi possível devido ao tremendo impacto que a Revolução Russa teve sobre o movimento operário brasileiro. Como disse Astrojildo Pereira, “tratava-se, na realidade, de uma organização tipicamente anarquista, e sua denominação ‘Partido Comunista’ era um puro reflexo, nos meios operários brasileiros da poderosa influência exercida pela revolução proletária triunfante na Rússia, que se sabia dirigida pelos comunistas daquele país. O que não se sabia ao certo é que os comunistas que se encontravam à frente da revolução russa eram marxistas e não anarquistas. Só mais tarde essas diferenças se esclareceram, produzindo–se então a ruptura entre anarquistas ditos ‘puros’ e ‘intransigentes’ (…) e os anarquistas que permaneceram fiéis a classe operária (…). E estes últimos é que viriam a fundar, em 1922, o verdadeiro partido Comunista do Brasil”.
Segundo Dário Canale, a criação de um “partido” de caráter nacional foi a tentativa de ultrapassar a extrema dispersão das organizações anarco-sindicalistas. “Em sua denominação e finalidade esse ‘PCdoB’ evidenciava algumas contradições com a tradição anárquica brasileira, embora sua prática mostrasse também continuidade (…). É de se supor que os organizadores do ‘PCdoB’ quisessem criar algo menos tradicional e doutrinário, um instrumento mais ágil e dinâmico, para incidir de maneira mais eficaz na nova realidade nacional e internacional”. Continua Canale: “embora o ‘PCdoB’ fosse bastante heterogêneo, havia nele elementos favoráveis a uma ação especificamente política, utilizando como instrumento uma organização um pouco menos descentralizada, em nível nacional: dois aspectos bastante heréticos, do ponto de vista acrático ortodoxo.”
Sinais do surgimento de um pensamento heterodoxo entre os anarquistas também podem ser vistos em alguns artigos de jornais anarquistas, como Alba Rossa. Este depois de dizer, em editorial, que os sovietes era Bakunin corrigindo Marx, afirmou: “nós queremos é constatar de maneira incontestável que todo poder revolucionário é ditadura e que, sem ditadura do proletariado não se faz revolução”. Aqui, na verdade, era Marx corrigindo Bakunin. Um dos redatores do jornal Spartakus – mostrando o grau de confusão e o ecletismo reinante entre os anarquistas brasileiros – escreveu em 30 de outubro de 1919: “Leio Kropotkin, inspiro-me nas obras maravilhosas de Bakunin e Carlos Marx e admiro a obra de Lênin na Rússia”. Dentro de alguns anos frases como essas seriam tidas como verdadeiras heresias.
O Fim do primeiro PCdoB
Segundo Canale, a última menção ao PCdoB é de janeiro de 1920. Possivelmente, ele tenha durado ainda alguns meses depois desta data. O seu fim, possivelmente, está ligado à repressão política que cresceu no final de 1919 e às próprias divergências no interior da organização entre aqueles que se aferravam ao anarquismo e os que começavam a superá-lo, aderindo ao bolchevismo.
Na Rússia os conflitos entre anarquistas e comunistas começaram logo após a tomada do poder pelos sovietes. Em abril de 1918 Trotsky havia fechado a Federação dos grupos de anarquistas de Moscou. Contudo, vários anarquistas continuaram atuando e buscando intervir com curso da revolução, entre eles Ema Goldman.
Parte da imprensa burguesa e pequeno-burguesa no país divulgava os conflitos existentes, pretendendo separar os anarquistas da Revolução Russa. Afirmavam maldosamente que nem os comunistas (bolcheviques) os toleravam. No Brasil das primeiras décadas do século XX era o anarquismo a força considerada mais ameaçadora pela burguesia, tendo em vista que os marxistas não tinham presença significativa no movimento operário em ascensão. As coisas só mudariam a partir dos anos 1920.
Em maio de 1918 A razão divulgava notas de agências noticiosas internacionais dizendo que “Os comissários do povo são hoje forçados a combater nas ruas os anarquistas, empregando mesmo processos de que se utilizava o Sr. Kerenski, durante a revolução de julho do ano passado, contra as manifestações maximalistas”. No mês de novembro de 1919, o mesmo jornal voltou à carga. “Não fosse a ação nefasta dos Oiticicas e Astrojildos russos, que tanto envenenaram com a sua intransigência fanática e com as brutalidades sanguinolentas e revoltantes, muito diferente teria sido o prisma pelo qual os demais povos encararam e encaram a administração de Lênin e Trotski (…). Os grupos e federações anarquistas desde o início não reconheceram a autoridade dos sovietes e da administração maximalista (…). Além disso, os anarquistas começam a conspirar abertamente contra Lênin, procurando derrubar o governo maximalista (…). E a luta se travou sangrenta, sendo esmagados os anarquistas em Moscou e em seguida em outras cidades”.
Até o final de 1919 notícias como essas não abalaram – ou abalaram pouco – o apoio dos anarquistas ao processo revolucionário russo e sua admiração pelos líderes bolcheviques. Tendiam a encarar com ceticismo as informações vindas dessas agências internacionais ligadas ao imperialismo. Ao longo de 1920 a situação mudou, conforme chegavam publicações e correspondências de grupos anarquistas estrangeiros. Elas confirmavam a existência de graves conflitos com o bolchevismo. Seria após o esmagamento do levante de Kronstadt em março de 1921 – quando Ema Goldman rompe definitivamente com Lênin e seus camaradas – que as coisas se cristalizaram. A partir daí muitos anarquistas brasileiros – inclusive os que haviam aderido ao PCdoB – passaram a assumir posições extremamente críticas à Rússia Soviética.
Em meados de 1921, Astrojildo Pereira – mesmo sem dominar ainda o marxismo e o leninismo – deu um passo decisivo no sentido de romper com o anarquismo. Ele escreveu uma carta pedindo o afastamento da redação do jornal A Plebe na qual afirmava: “Para mim o anarquismo (…) não é um dogma, um ídolo, uma coisa sagrada. Digo mais: o que me importa não são as palavras são os fatos. Se uma série de fatos me demonstra que tais ou quais pontos da doutrina, tais ou quais princípios não estão conformes à realidade, para o diabo tais princípios e tais doutrinas”. Noutra carta – escrita pouco tempo depois – disse: “a rota foi traçada por Moscou: concentração, homogeneização, disciplina e ditadura. O mais, estou convencido, é conversa fiada”.
Ainda anunciou que estava discutindo com outros camaradas o futuro de sua atuação político-revolucionária: “estas nossas reuniões tem por finalidade esclarecer esses pontos e estabelecer critérios nítidos e sólidos de luta. Feito isso meteremos mãos á obra (…). Não conto com muita gente qualitativamente à altura dos acontecimentos. Mas eu prefiro mil vezes trabalhar com 10 homens firmes, seguros e devotados, do que com 100 indecisos, flutuantes e refratários (…) ao esforço disciplinado, constante e heróico”. Estávamos em agosto de 1921 e as reuniões, dirigidas por Agildo e com a presença de apenas poucas dezenas de pessoas, continuaram por alguns meses. Nelas se debatiam os materiais da Internacional Comunistas e os esparsos textos de Lênin que chegavam ao Brasil. E, mais importante, preparavam a criação de um verdadeiro Partido Comunista no Brasil.
No exato momento em que se comemorava o 4º aniversário da Revolução Socialista na Rússia, em 7 de novembro de 1921, Astrojildo e seus camaradas criaram o Grupo Comunista do Rio de Janeiro. O seu objetivo, entre outros, era: “propagar e defender o Programa da Internacional Comunista”, “promover a organização de grupos similares por todo o Brasil, como base para constituição em breve do Partido Comunista do Brasil, seção brasileira da IC”.
O Grupo Comunista do Rio de Janeiro passou a publicar a revista Movimento Comunista, que seria importante instrumento de agregação de militantes e grupos que se consideravam comunistas, adeptos do bolchevismo, espalhados por alguns poucos estados.
Por fim, entre 23 e 25 de março de 1922, se reúne o Congresso de Fundação do Partido Comunista do Brasil. Eram nove delegados representando grupos comunistas do Rio, Niterói, São Paulo, Cruzeiro, Porto Alegre e Recife. As cidades de Juiz de Fora e de Santos não puderam comparecer. No total não passavam de 100 militantes distribuídos por todo país. Era um começo bastante modesto para quem pretendia ser vanguarda do proletariado e da revolução socialista no Brasil.
Vivia-se um período de grave refluxo do movimento operário, que havia atravessado o seu momento áureo três anos antes. Devido a isso, a criação do Partido Comunista do Brasil em 1922 não mereceu nenhuma atenção da imprensa, quer burguesa quer operária. Nenhum jornal noticiou a criação de uma organização política que tanta importância teria na história brasileira do século XX. Mesmo a revista Movimento Comunista, porta-voz do novo partido, só traria a notícia alguns meses depois. A organização – que não ainda era clandestina – havia sido registrada como sociedade civil com o nome “Partido Comunista, Seção Brasileira da Internacional Comunista”.
Bibliografia
BANDEIRA, Moniz; MELO, C.; ANDRADE, A.T. O ano vermelho: a revolução russa e seus reflexos no Brasil. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1980
CANALE, Dário. O surgimento da seção brasileira da Internacional Comunista, Ed. Anita Garibaldi/Fundação Maurício Grabois, São Paulo, 2013.
DULLES, John W. Foster. Anarquistas e comunistas no Brasil, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1977
PEREIRA, Astrojildo. Formação do PCB: 1922/1928, Ed. Anita Garibaldi/Fundação Maurício Grabois, São Paulo, 2012.
* Augusto Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Editora Anita Garibaldi.
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